Estudante Macauense com surdez ex-IFRN, entra para licenciatura em Língua de Sinais

 

    Curioso e determinado. Essas são algumas das características que definem o exaluno do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), Daniel Henrique de Melo Bezerra, de 23 anos. O jovem, que é surdo, estudou o curso técnico Recursos Pesqueiros, no Campus Macau do IFRN e carrega desde pequeno o sonho de se tornar professor de Língua Brasileira de Sinais (Libras). Agora, o sonho está mais próximo. Este ano, o estudante foi aprovado para licenciatura em Letras Libras/Língua Portuguesa.

    Com uma trajetória repleta de desafios, Daniel contou com o apoio dos amigos e familiares, que o incentivaram a não desistir e lutar pelo o que acredita: a inclusão dos surdos na sociedade. Ao lado da intérprete de Libras do Campus Macau, Márcia Efigênia, o estudante conta sua história. 

Relação com o IFRN

    Foi por meio de uma visita com sua antiga escola, em 2013, que Daniel conheceu o Instituto Federal do Rio Grande do Norte. O jovem lembra que, por não haver um intérprete de Libras na época, ele não pôde compreender muita coisa. Mesmo assim, prestou o processo seletivo para o IFRN. Após tentar por dois anos, Daniel foi aprovado, e, em 2015, ingressou no curso técnico Integrado em Recursos Pesqueiros, no Campus Macau.

    “Eu tive muitas dificuldades”, relembrou o estudante sobre o início de seus estudos no Instituto. A ausência de um intérprete o preocupava. Porém, a prefeitura de Macau, cidade em que mora, em acordo com a Equipe Técnica Pedagógica (Etep) do Campus, concedeu a profissional de língua de sinais Tamires Raissa, que o ajudou nas primeiras semanas de aula. No entanto, por motivos de saúde, a profissional teve de ser afastada.

    Ainda em 2015, os interpretes Yngrid Beatriz, do IFRN, e Carlos Antônio, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), passaram a dar suporte do estudante, então com 17 anos. Nos momentos de dificuldades, os profissionais encorajaram Daniel a não desistir. “Eu continuei lutando. Sou muito grato à Tamires (primeira intérprete), à Ingrid e ao Carlos”.

    Para levar acessibilidade a Daniel, a intérprete Yngrid chegou a organizar, durante as férias escolares, um curso de Libras para os servidores do Campus. A Equipe Técnica Pedagógica também buscou expandir a inclusão, desenvolvendo uma oficina para que demais os estudantes aprendessem a Língua Brasileira de Sinais.

Dificuldades e superação

    A vontade de desistir era persistente. Porém, mais persistente ainda era o sonho de se tornar professor. “Eu tinha o interesse, como pessoa surda, de ser professor de Libras. Desde os 11, 12 anos, escolhi essa profissão para ensiná-la a surdos e ouvintes. Achava importante, por isso essa vontade de fazer a licenciatura”.

     Os intérpretes de língua de sinais, parceiros de Daniel, o incentivaram a continuar estudando. “Fui até o fim”, declarou ele, todo orgulhoso. O fato de ser o primeiro surdo no Campus Macau também inspirou o jovem, que queria inspirar outros. “Conheci a luta da inclusão, e entendi que, como pessoa surda, eu precisaria estar incluído”.

    Quem comemora cada conquista do jovem é Márcia Efigênia, a intérprete do Campus Macau. A profissional conta que os primeiros anos ao lado do estudante foram difíceis: “Foi complicado. Daniel precisava tanto de apoio quanto de material. Era um trabalho exaustivo”. É sorrindo, porém, que Márcia acrescenta: “Daniel era um aluno que queria saber de tudo, que queria estar envolvido com tudo; queria saber de todas os assuntos. Era cansativo, mas eu já trabalhava há mais de 12 anos com a língua de sinais, e era uma satisfação enorme para mim ver o Daniel crescendo”, afirma. A parceria entre os dois foi tamanha que, até hoje, Márcia continua dando assistência ao jovem, que concluiu o curso técnico no IFRN em 2019.

Futuro professor, mestre e doutor

    A aprovação na tão sonhada graduação veio este ano. Daniel conquistou uma vaga na licenciatura de Letras Libras/Língua Portuguesa, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Transparecendo toda sua felicidade, o futuro professor revela: “Penso nisso a todo instante: ser professor de Libras e dar visibilidade a essa língua”.

    No alto dos seus 23 anos, o estudante tem seu futuro bem planejado, com direito a mestrado e doutorado. “Me sinto realizado e feliz em pensar que os problemas e as coisas negativas passaram. Eu estou conseguindo traçar meus sonhos”, concluiu Daniel



Fonte: Tribuna do Norte

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